domingo, 16 de março de 2008

“A fenda que nos separa da ponte que nos aproxima”

Resolvi então falar das diferenças. Sou apaixonada pela vivência da diferença, mas erroneamente busco sempre a igualdade, a homogeneidade dos seres que estão na atmosfera sexual. Não são as diferenças entre os sexos, mas as diferenças que estão na “fenda que nos separa e na ponte que nos aproxima”, já dizia Moska. As diferenças solidificam o ato, contraditoriamente é o que movimenta o movimento, é a força que impulsiona o que deve ser sempre um e outro, e nunca um só. Na verdade o “um só” é o resultado da movimentação e da percepção do “um e outro”. É como espelho, objeto e reflexo, é como ser e sombra, diferentes, mas inerentemente juntos.
E isso não depende só do amor, é conexão, é a ponte que liga as margens da fenda entre um e outro. O importante é sempre construir as pontes, diferentes pontes, de diversas cores, de todos os tamanhos, com várias texturas, de pedra, de cimento, de madeira, de beijos, de línguas, de mãos, de cheiros, de novas descobertas.
Música e sexo. Outro ponto. Não sei desvincular sexo de música, não esquecendo que sexo é que é sempre música e não a música que é sempre sexo. Sexo também é palavra, é dizer, é abrir a boca, passar a língua e abrir os ouvidos, é deixar que penetre o que se quer dizer e que nem sempre é dito. Sexo é palavra com ou sem significado, uma metáfora das diferenças do que se sente ao fazê-lo. Sexo é imposição de força, é virar, é revirar, é um que recebe e o outro que dá, é um que só pensa em receber e um que só quer dar, é um que dá sem esperar receber. É um que aceita as diferenças, é um que resolve dissolvê-las, um que as sente, que as pronuncia, que não elimina, mas descasca, absorve e come.

E uma última observação: é sempre a música a culpada de tudo isso.

UM & OUTRO (MOSKA)
Um fala, o outro escuta
Um cala, o outro muta
Um grita, o outro olha
Um habita, o outro desfolha
Um aperta, o outro solta
Um liberta, o outro volta
Um salta, o outro pousa
Um falta, o outro ousa
Entrar na fenda que nos separa da ponte que nos aproxima
Quem retirou a última pedra do muro que estávamos em cima?
Um atura, o outro devora
Um mistura, o outro demora
Um corre, o outro estanca
Um morre, o outro arranca
Um concorda, o outro sabe
Um transborda, o outro cabe
Um chamusca, o outro congela
Um busca, o outro revela
A fenda que nos separa da ponte que nos aproxima
Quem retirou a última pedra do muro que estávamos em cima?
Um existe, o outro permanece
Um insiste, o outro acontece
Um estranha, o outro acostuma
Um acompanha, o outro desarruma
Um agarra, o outro conquista
Um esbarra, o outro despista
Um batalha, o outro entrega
Um encalha, o outro navega
Na fenda que nos separada ponte que nos aproxima
Quem retirou a última pedrado muro que estávamos em cima?

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